domingo, 9 de dezembro de 2012

Fandango, um patrimônio vivo


 Grupo folclórico de Canguaretama é o primeiro a receber bolsa vitalícia do Governo do Estado
Sérgio Vilar // sergiovilar.rn@diariosassociados.com.br
                                        Foto: Kal Fernandes
O  grupo em uma de suas últimas apresentações na procissão da padroeira do município
Pelas ruas simples do município praiano desfila a tradição secular. Um cortejo de populares segue a barca rodeada de marinheiros inspirados nas aventuras épicas de oceanos de outrora. São os capitães de mar e guerra e da história dos folguedos e autos natalinos. Na simbologia daquele "veleiro" caminham raízes ibéricas perfumadas pela cultura brasileira mais genuína e popular. A barca do Fandango carrega mais de 150 anos de história sob o asfalto das ruas de Canguaretama. É o mais fiel às tradições do auto no Brasil e o primeiro grupo selecionado pela Lei do Patrimônio Vivo a receber a bolsa vitalícia e mensal no valor de R$ 1,5 mil.

O auto marítimo já foi manifestação indispensável às comemorações do ciclo natalino. Origem ibérica; herança portuguesa. Chegaram ao Brasil sob denominações de Fandango, Chegança, Marujada, Barca, Naucatarineta ou simplesmente dança de marujos. No Fandango originado em Canguaretama, os cerca de 30 integrantes vestem fardas da Marinha Mercante brasileira. Diferem mesmo dos outros autos no canto e enredo. Os do Fandango totalizam 24 jornadas ou romances. Alguns longos, de mais de 15 minutos de cantoria. A chácara da bela Naucatarineta é o núcleo central de todos eles. As encenações representam disputas, resingas, lamentos de marujos perdidos em alto-mar.

Para um dos maiores folcloristas vivos do Brasil, o potiguar areia-branquense Deífilo Gurgel, o Rio Grande do Norte é dos estados da Federação mais ricos em manifestações da cultura popular e o Fandango de Canguaretama é dos grupos mais originais e bonitos do país. O Diário de Natal acompanhou Deífilo e o presidente da Comissão Estadual de Folclore, Severino Vicente na viagem a Canguaretama, semana passada, para contatar os mestres do Fandango e informar a notícia da seleção na Lei. Como era esperado, nem os agentes da prefeitura nem os responsáveis pelo grupo sequer conheciam a Lei do Patrimônio Vivo, de autoria do deputado estadual Fernando Mineiro.

O responsável pelo Fandango desde 1971 é José Manoel do Nascimento Filho, o mestre Zé Dinar, 58 anos. Os folcloristas encontram Zé Dinar no açougue do mercado público, onde trabalha. Praticamente todos os "marinheiros" do grupo são pescadores, gente simples e que preserva a tradição do Fandango sem qualquer apoio municipal. "Nossa barca dorme ao relento, sem proteção nem teto", reclama Kleber Pinheiro, o Klebinho, 54, que divide com Zé Dinar as responsabilidade do grupo. "Tomo conta da parte administrativa. Se Zé Dinar sair eu também saio porque eu não danço e não tem quem substitua ele. Não temos apoio. Nem mesmo uma sala. Ensaiamos na rua. Conseguimos quem cedesse um terreno para nós, mas a prefeitura não levantou um tijolo", lamenta.

O último convite para apresentação do grupo foi em dezembro, durante a procissão da padroeira do município. "Quando chamam a gente pra se apresentar fora, a maioria precisa voltar com alguma comida para casa. São pescadores. E se passam o dia fora não tem peixe no dia. Mas cansei de promessa e voltar de Natal sem nada", reclama Klebinho.

A expectativa de Severino Vicente é a de que a bolsa concedida pela Lei possa proporcionar mais dignidade ao grupo e o folguedo seja preservado. Segundo Zé Dinar, nenhum integrante do grupo sabe cantar todas as jornadas. O mestre teme que o repasse ininterrupto do saber destes fragmentos longínquos das encenações e cantorias entre as gerações possa ser interrompido quando ele parar. Segundo Severino Vicente, a encenação teatral retrata a luta entre mouros e cristãos, com seus duelos de espada, obrigando os infiéis a se renderem e invocarem o nome da Virgem Maria. Submetidos e presos, os mouros pedem o batismo.

Severino explica que o Fandango é inspirado na aventura épica de uma velha Nau, perdida em alto mar durante sete anos e um dia, a caminho das terras de Portugal e Espanha, com a tripulação vivendo momentos de angústia, aflição e incerteza. Não havendo mais o que comer e beber apelam para se alimentar de solas de sapatos. Mas, as solas eram tão duras que não conseguiam comer. Botam as sete sortes, para sortear um dos componentes e alimentar os demais. O sorteado foi o Capitão, o mesmo reage de espada em punho. Do topo do mastro o Gajeiro mira o brilhar das espadas, em seguida solta o grito: Auvistas meu capitão/ auvistas venho lhe dá/ avistei terras em Espanha, ô tolinda/ e ares de portugá. Também avistei três moças, ô tolinda\ Debaixo de um parrerá/ Uma desfiando seda, ô tolinda/ procurado um adedá.

Os primeiros organizadores do Fandango de Canguaretama foram Manoel Francisco de Andrade (Manoel Lima) e Genésio Mangabeira. Em seguida veio Antônio de Andrade (Antônio Lima) e Geraldo Costa. Apresentam-se com 40 componentes e se organizam de forma hierárquica. Capitão de Mar e Guerra, Capitão de Fragata, Capitão Piloto, Capitão Imediato, Mestre e Contra-mestre, Gajeiro, Calafate, Ração, Vassoura e marujos.
Fonte: Diário de Natal

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Primeiros mártires brasileiros

                                                           História do Brasil
  Primeiros mártires brasileiros
                     Dia 5 de março, em Roma, João Paulo II beatificará um grupo
     de mártires brasileiros. Você sabia de sua existência?
História
Em 16 de junho de 1645, o Pe. André de Soveral e outros 70 fiéis foram cruelmente mortos por 200 soldados holandeses e índios potiguares. Os fiéis estavam participando da missa dominical, na Capela de Nossa Senhora das Candeias, no Engenho Cunhaú - no município de Canguaretama (RN). O que motivou a chacina? A intolerância calvinista dos invasores que não admitiam a prática da religião católica: isso custou-lhes a própria vida.
A chacina de Cunhaú
O movimento de insurreição contra o domínio holandês já começara em Pernambuco, mas, na capitania do Rio Grande do Norte, tudo parecia normal. Bastou, porém, a presença de uma só pessoa para que o clima se tornasse tenso: Jacó Rabe, um alemão a serviço dos holandeses. Ele chegara a Cunhaú no dia 15 de julho de 1645.
Rabe era um personagem por demais conhecido dos moradores de Cunhaú. Suas passagens por aquelas paragens eram freqüentes, sempre acompanhado dos ferozes tapuias, semeando por toda parte ódio e destruição. A simples presença de Rabe e dos tapuias era motivo para suspeitas e temores.
"Além dos tapuias, Jacó Rabe trazia, desta vez, alguns potiguares e soldados holandeses. Ele dizia-se portador de uma mensagem do Supremo Conselho Holandês, do Recife, aos moradores de Cunhaú.
No dia 16 de julho, Domingo, um grande número de colonos estava na igreja, para a missa dominical celebrada pelo Pároco, Pe. André de Soveral. Jacó Rabe mandara afixar nas portas da igreja um edital, convocando a todos para ouvirem as Ordens do Supremo Conselho, que seriam dadas após a missa.
Como havia um certo receio pela presença de Jacó Rabe, alguns preferiram ficar esperando na casa de engenho.
Chegou a hora da missa. Os fiéis, em grupos de familiares ou de amigos, dirigiram-se à igrejinha de Nossa Senhora das Candeias. Levados apenas por cumprir o preceito religioso, os fiéis não portavam armas, mas só alguns bastões que encostaram nas paredes do pórtico.
O Pe. André inicia a celebração. Após a elevação da hóstia e do cálice, erguendo o Corpo do Senhor, para a adoração dos presentes, a um sinal de Jacó Rabe, foram fechadas todas as portas da Igreja e se deu início à terrível carnificina.
Foram cenas de grande atrocidade: os fiéis em oração, tomados de surpresa e completamente indefesos, foram covardemente atacados e mortos pelo flamengos com a ajuda dos tapuias e potiguares.
Ao perceber que iam ser mesmo sacrificados, os fiéis não se rebelaram. Ao contrário, 'entre mortais ânsias se confessaram ao sumo sacerdote Jesus Cristo, pedindo-lhe, com grande contrição, perdão de suas culpas", enquanto o Pe. André estava 'exortando-os a bem morrer, rezando apressadamente o ofício da agonia" (Verdonk).
Chacina de Uruaçu
Três meses depois aconteceu o martírio de mais 80 pessoas, e sempre pelas mãos dos calvinistas holandeses. Entre elas estava o camponês Mateus Moreira, que teve o coração arrancado pelas costas, enquanto repetia a frase: "Louvado seja o Santíssimo Sacramento". Isso aconteceu na Comunidade de Uruaçu, em São Gonçalo do Amarante (a 18 km de Natal).
Contam os cronistas que as notícias dos graves e dolorosos acontecimentos de Cunhaú se espalharam rapidamente por toda a capitania do Rio Grande do Norte e capitanias vizinhas. A população ficou assustada e temia novos ataques dos tapuias e potiguares, instigados pelos holandeses.
Também desta vez tudo aconteceu sob o comando de Rabe, ajudado pelo chefe potiguar Antônio Paraopaba.
Os índios já tinham sido avisados das intenções dos dois e lá estava o chefe potiguar com os seus comandados: mais de duzentos índios, bem armados.
Logo que desceram dos batéis, os flamengos ordenaram aos moradores que se despissem e se ajoelhassem. A um sinal dado por eles, os índios, que estavam emboscados, saíram dos matos e cercaram os indefesos colonos.
Teve início, então, a terrível carnificina, descrita com impressionante realismo pelos cronistas portugueses. Nas descrições, nota-se o contraste entre a crueldade dos algozes e a resignação e o perdão das vítimas:
"Começaram a dar tão desumanos e atrozes tormentos aos homens que já muitos dos que padeciam tomavam por mercê a morte. Mas os holandeses usaram da última crueldade entregando-os aos tapuias e potiguares, que ainda vivos os foram fazendo em pedaços, e nos corpos fizeram anatomias incríveis, arrancando a uns os olhos, tirando a outros as línguas e cortando as partes verendas e metendo-lhas nas bocas..." (Santiago).
A descrição da morte de Mateus Moreira é o ponto mais expressivo de toda a narrativa de Uruaçu e constitui um dos mais belos testemunhos de fé na Eucaristia, confessada na hora do martírio.
"Os algozes arrancaram-lhe o coração pelas costas, e ele morreu exclamando: 'Louvado Seja o Santíssimo Sacramento."
Processo de beatificação
Segundo Mons. Francisco de Assis Pereira, Postulador da Causa de beatificação desses Mártires, "a memória dos servos de Deus sacrificados em Cunhaú e Uruaçu, em 1645, permaneceu viva na alma do povo potiguar, que os venera como autênticos defensores da fé católica". O processo de beatificação foi concedido pela Santa Sé, no dia 16 de junho de 1989, e, em 21 de dezembro de 1998, o Papa João Paulo II assinou o Decreto reconhecendo o martírio de 30 brasileiros, sendo dois sacerdortes e 28 leigos.
Mons. Assis acompanhou o processo por mais de dez anos, reunindo documentos em pesquisas realizadas em Portugal, Holanda e no Brasil. Deste material resultou o livro Protomártires do Brasil, de sua autoria.
A cerimônia de Beatificação acontecerá no dia 5 de março, na praça de São Pedro, em Roma. A celebração será presidida pelo Papa. O Cardeal Dom Eugênio Sales, filho do Rio Grande do Norte, presidirá, numa Igreja de Roma, a missa em ação de graças pela beatificação dos Protomártires brasileiros, os primeiros que derramaram o sangue pela fé em nossa Pátria e cujo martírio é reconhecido oficialmente pela Igreja. Fala-se que um grande monumento será construído no local onde aconteceu o martírio de Uruaçu.
Que tal conhecê-los melhor?
No momento em que os brasileiros comemoram os 500 anos da história do País, a Arquidiocese de Natal se esforça para tornar o fato conhecido em nível nacional e não só no meio eclesial.
Segundo Dom Heitor de Araújo Sales, Arcebispo de Natal, a beatificação dos Protomártires do Brasil chega num momento oportuno para colocar em evidência o debate sobre ecumenismo, tolerância e paz no mundo, a partir do diálogo religioso, ao mesmo tempo em que questiona qualquer estrutura social injusta e pecaminosa. No mês de agosto, a Arquidiocese realizou romaria a Uruaçu, reunindo mais de 15 mil pessoas, com o tema "Brasil, um filho teu não foge à luta", lembrando a coragem dos mártires e o seu testemunho em defesa de um país justo e democrático.
LIVROS PUBLICADOS SOBRE O TEMA
Ao longo dos 354 anos, historiadores, jornalistas e escritores têm feito freqüentes referências ao acontecimento. Três livros merecem destaque: Protomártires do Brasil, do Mons. Francisco de Assis Pereira;
Terras de Mártires, da jornalista Auricéia Antunes de Lima;
Mártires de Cunhaú e Uruaçu, do Pe. Eymard L.E. Monteiro.
Cacilda Medeiros e Francisco Morais
Pastoral da Comunicação - Natal/RN                                                                                     Fonte:  Jornal - "MISSÃO JOVEM"   

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sábado, 21 de julho de 2012

@C: Memória e história: Pedro Velho em Dissertação.

@C: Memória e história: Pedro Velho em Dissertação.: Mestre MARCOS TAVARES DA FONSECA. MEMÓRIA E HISTÓRIA DA ANTIGA VILA DE CUITEZEIRAS PEDRO VELHO/RN (1861 a 1936) João Pessoa, 2006. Disserta...

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Os franceses no litoral sul do RN


Fonte:canguaretamarn.com.br
Os franceses Gramació 


Os franceses nunca esconderam o desejo de explorar o comércio nos novos territórios monopolizados pelos ibéricos depois do Tratado de Tordesilhas. Para tanto, tentaram tomar posse de uma parte do Brasil logo no primeiro século da colonização. Nessa época, a principal atração econômica do território brasileiro foi o pau-brasil, mercadoria muito bem aproveitada no processo de tingir tecidos, já que a atividade têxtil francesa estava em pleno desenvolvimento.
Como a prática comercial não exigia o domínio territorial, os nativos foram cordiais com os franceses, fazendo do litoral da capitania um reduto de exploradores de madeiras. O navegador francês Jacques de Vaulx de Claye, chegou a elaborou um mapa do nordeste do Brasil, em 1579. Tratava-se de um portulano para uma expedição que ocorreu em 1581, planejada por Catarina de Médici para Filipe Strozzi conquistar a costa entre a Amazônia e a Bahia. Essa expedição foi derrotada nos Açores por uma frota espanhola.
O documento de Jacques de Vaulx apresenta um inventário sobre os recursos naturais, espécies de animais e tribos nativas da região. Nesse mapa aparecia uma aldeia denominada Ramaciot, correspondendo a atual área de Vila Flor. Aparentemente, essa deveria ser uma aldeia importante para as relações comerciais dos franceses.
Como um ancoradouro natural, Baía Formosa serviria para os navios franceses receber as mercadorias. Em embarcações menores deveriam entrar no território pelos rios Cunhaú, trairi e Pituaçu e, dessa forma, devem ter feito muitos contatos com os nativos da região.
A atuação dos franceses não parece ter perdido força depois que Portugal passou a ser governado pelos espanhóis. Durante a União Ibérica, entre 1580 e 1640, as invasões à colônia brasileira tiveram um significativo aumento, pois a Espanha estava envolvida em complicados conflitos com franceses, ingleses e holandeses.
Foi por esse motivo que, no final do século 16, o monarca espanhol ordenou a retomada das capitanias do norte da colônia que estavam abandonadas. As capitanias entre São Vicente e Pernambuco estavam relativamente controladas pela Coroa, especialmente após a instalação do Governo Geral. Já os donatários das capitanias de Itamaracá, Rio Grande, Ceará e do Maranhão não conseguiram sucesso em seus empreendimentos, fracassando na colonização.
Com isso, muitos estrangeiros aproveitaram para fazer comércio com os produtos que encontravam na região. Além do pau-brasil, outras madeiras, peles e plumas de animais selvagens também eram comercializadas com os nativos.
Com a retomada dessas capitanias, os ibéricos devem ter feito uma perseguição forte contra as aldeias que mantiveram contatos com os franceses. Depois do domínio ibérico consolidado, os relatos sobre Gramació não aparecem mais. Nem mesmo durante a dominação holandesa, que promoveu várias alianças com os nativos entre 1630 e 1654, há informação sobre a tribo de Gramació.
A aldeia original de Gramació foi, então, exterminada na retomada da capitania, feita a partir de 1597. As informações sobre a aldeia só retornam no final do século 17 e início do 18, cem anos depois da conquista. Por esse motivo há de se imaginar que a aldeia de Gramació que reaparece nos relatos a partir do século 18 já não é a mesma que foi citada pelos franceses, muito embora tenha sido mantida a toponímia.

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