quarta-feira, 13 de outubro de 2010

ALENDA DOS CARANGUEJOS



 OS Caranguejos


É muito curioso o que se diz do caranguejo pela expressão de algumas locuções 
populares: "Perdeu a cabeça por causa de camaradas; não morre enforcado, porque 
não tem pescoço; e por morrer um caranguejo não se cobre o mangue de luto"; e o 
povo diz ainda que "o caranguejo só é gordo nos meses que não têm R: maio, 
junho, julho e agosto". Essas informações são dadas incompletas pelos 
pescadores, dizendo sempre ter ouvido, quando meninos, muitas estórias de 
caranguejos esquecidas depois. Alguns pescadores dos mangues contam lendas e 
superstições sobre os crustáceos.

Uma das lendas diz que os caranguejos são governados por uma espécie de rei, um 
caranguejo cujo casco mede uns vinte centímetros e tem patas enormes. Chamam-no 
de garrancho. É um crustáceo esverdeado, misterioso, dificilmente visto. Vive no 
fundo da lama, num buraco muito profundo, com a entrada escondida. Nenhum 
pescador de mangue o vê duas vezes na vida. O garrancho só deixa o buraco para 
sair uma vez por ano, à meia-noite da Sexta-Feira da Paixão. Anda até o primeiro 
cantar do galo. Volta, mete-se em casa e não há mais quem o enxergue. Quem 
conseguir arrancar ao menos uma pata ao garrancho está com a vida garantida, 
porque nunca mais lhe faltará caranguejo, siri ou goiamum. Basta trazer a pata 
do garrancho no bolso e riscar com ela na lama do mangue.

Havia um pescador que dizia que era mentira quando se afirmava ter visto o 
garrancho ou conseguido uma patinha para dar sorte. Ele havia prendido um, 
enorme na gamboa da Garatuba Grande, amarrara-o com uma embira num galho de 
mangue e ao voltar encontrara o cipó intacto, com o mesmo nó e do garrancho nem 
rasto. Este é o crustáceo que tem a figura de uma moça encantada no casco, muito 
mais nítida e perfeita que seus vassalos. E tem também a cruz, bem clara. Por 
isso sai no dia em que a cruz se ergueu com o Salvador. Essa tradição do 
caranguejo com uma cruz, tem registo velho e área geográfica de crendice bem 
longe dos mangues do Rio Grande do Norte. São Francisco Xavier atirou ao mar, 
perto das Molucas, na Oceania, seu crucifixo para acalmar uma tempestade. Um 
caranguejo susteve o crucifixo no casco e entregou a relíquia ao santo, quando 
este desceu na primeira praia. Como lembrança ficou uma cicatriz cruciforme no 
casco.

No dia do Domingo de Ramos, na Semana Santa, há uma Procissão de Caranguejos. 
Dizem que os caranguejos faziam, igualmente, sua procissão de Ramos. À noite 
desse domingo, saíam de patas erguidas, sustendo raminhos de mangue.

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